Quem passeia com cão que puxa e não tem mão livre resolve isso antes de abrir a porta: guia na mão esquerda com a alça firme no pulso e o rolo preso na palma, clicker preso por elástico no pulso direito, comida no bolso ou na pochete do lado direito. Com essa divisão feita, marcar o instante exato em que a guia afrouxa para de depender de uma terceira mão — e é esse instante, não o momento em que o cão já está esticado no fim da guia, que ensina alguma coisa.
O lugar de cada coisa
São seis e pouco da tarde numa calçada de bairro e o sol ainda bate na parede da padaria. Antes de sair, eu confiro sempre na mesma ordem: alça da guia passada no pulso esquerdo, rolo preso entre os dedos com uns trinta centímetros de folga sobrando, clicker no elástico do pulso direito, saquinho com pedaços de frango frio no bolso direito. Duas mãos, três coisas.
Não tem mágica nisso. Tem uma decisão: o clicker e a comida ficam do lado da mão que clica; a guia fica do outro. Quando a comida vai para a mão da guia, no aperto ela vira isca na frente do focinho e o cão atravessa na sua frente para pegar. Quando o clicker vai para o bolso, você não marca nada — e é isso que acontece no primeiro passeio em que uma moto de entrega passa raspando e você descobre que está com a mão ocupada.
O rolo também não vai enroscado nos dedos. Palma fechada, folga controlada, polegar do lado direito livre para achar o clicker sem você precisar olhar para baixo.
O clique é da guia que cede, não do cão que puxa
Essa é a parte que quase todo mundo erra no começo, e erra com boa intenção. A guia estica, o cão está lá na ponta com o peito para frente, e a pessoa clica. O clique entra no exato momento em que o cão já está puxando — ou seja, ela acabou de marcar a puxada.
O que eu quero marcar é a fração de segundo em que a pressão some. A guia que faz uma curva para baixo. O cão que dá meio passo para trás. A cabeça que vira na sua direção. É uma janela curta, e no começo você vai perder várias. Com o clicker no elástico do pulso, você perde menos, porque o atraso entre ver e apertar é menor do que se você tivesse que caçar o aparelho no bolso.
Existe uma consequência prática disso. Com um cão que puxa o tempo todo, a guia frouxa quase não existe sozinha. Você tem que criar o momento. Para de andar, planta os dois pés, espera. Em algum segundo o cão vai olhar para trás para ver por que você parou, ou vai ceder um passo. É aí que sai o clique. Não é o cachorro que está sendo generoso — é você que está construindo a única coisa que dá para marcar.
A comida vai para a sua perna
Pouca gente fala disso e é onde a coisa costuma desandar. A comida não é entregue na frente do cão, com o braço esticado na direção do focinho. Ela é entregue junto à sua perna, a mão descendo até a costura da calça, na linha do seu corpo. É ali que o cão come.
A diferença parece pequena e não é. Se a comida aparece na frente, o cão anda para a frente para buscar e você voltou ao ponto de partida. Se a comida aparece na sua perna, ele aprende que o lugar onde as coisas boas acontecem é do lado do seu corpo. Com o saquinho do lado direito e o cão andando do lado esquerdo, você leva a mão pela frente do corpo até a altura do quadril esquerdo e entrega baixo, na altura da cabeça dele.
Quando não sobra mão nenhuma
Tem passeio em que nem o polegar direito sobra: a sacola, o guarda-chuva, o celular que tocou. Para isso existem dois caminhos.
O primeiro é o clicker de pulso, que é o que eu uso na rua. Elástico no pulso, o botão na parte de baixo, e você aperta com o polegar da própria mão. Ele não cai, não some e não exige que a mão esteja livre.
O segundo é o marcador verbal, uma palavra curta que passa a valer o mesmo que o clique. Ela precisa ser carregada antes: em casa, na cozinha, sem distração, você diz a palavra e entrega a comida, umas vinte ou trinta vezes, até a cabeça do cão virar sozinha quando ele escuta. Só depois disso ela funciona na rua.
E ela tem um custo. Leva um pouco mais de tempo que o clique e depende de a sua voz sair neutra mesmo quando você está com o braço sendo arrancado. Se a palavra sai diferente, se sai com raiva ou com pressa, ela não vale nada naquele dia.
O olhar de volta vale clique
Numa rua com movimento, o que mantém o passeio junto é o cão te procurando com o olho. Isso não é obediência, é engajamento, e também se marca: o cão vira a cabeça na sua direção, você clica e paga.
No começo eu pago todo olhar de volta, e pago bem. Depois espaça — dois, três, quatro olhares para um clique. Se você pagar sempre, o passeio vira um cão andando de olho grudado em você esperando a mão descer, e isso também não é o que a gente quer. Cão que anda olhando para o tutor o tempo inteiro não está farejando, não está resolvendo a rua, e aí sobra energia para ele gastar de outro jeito, muitas vezes no primeiro cão que aparecer na esquina.
Antes da avenida, a rua calma
Ninguém aprende a dirigir na marginal. Eu treino guia frouxa em pedaço de calçada tranquila, de manhã cedo, ou na praça em horário morto, por uma ou duas semanas, antes de tentar na avenida cheia de cão solto e moto de entrega. Se você começa pelo pior lugar, o que você treina é o pior lugar: o cão aprende a puxar ali e você aprende a não clicar.
A avenida é prova final, não material de estudo.
O que não se marca
Isso aqui é firme: o clicker não marca reação a outro cão. Quando o cão trava, enrijece, encara e começa a avançar, você não clica. Marcar naquele instante é marcar exatamente o estado que você não quer, e o cão vai entender que aquilo rende comida.
Também não existe clique para fazer o cão parar de latir. O clicker marca o que aconteceu, não dá bronca. Ele não é ferramenta de correção, e tentar usá-lo assim só estraga o marcador que você levou semanas para carregar.
Nesse momento o que funciona é distância. Você vira, aumenta o espaço, sai de perto. E tem um detalhe que a rua ensina na marra: cão acima do limite, com a cabeça quente, normalmente não come. Você pode ter o frango mais gostoso do mundo no bolso que ele vai cuspir no chão. Por isso a distância vem antes da comida, e não no lugar dela.
E não vou prometer que ele vai parar de reagir. Isso depende do histórico do cão, da distância que você consegue manter num bairro apertado, de quantas motos passam por minuto na sua rua e de quanto treino cabe na sua rotina. O que costuma mudar é o tamanho da reação e a rapidez com que ele volta ao normal depois.
A guia frouxa precisa valer alguma coisa
Tem uma parte que não é clique nem comida: a caminhada em si. Para a maioria dos cães, andar é o maior reforço que existe, bem maior do que qualquer pedaço de frango. Então a guia esticou, você para. Cedeu, você anda. Isso é lento, é chato e ensina mais do que o saquinho sozinho.
O jeito que eu faço é esse: a comida paga o olhar de volta e a posição do corpo; o movimento paga a guia frouxa. Quando as duas coisas estão alinhadas, o passeio começa a se organizar sozinho.
Vale dizer que isso varia. Tem cão mais movido a comida, tem cão movido a cheiro e a espaço, e tem cão que responde melhor a voz e elogio. Num dia de trinta e cinco graus, no meio da tarde, com o asfalto quente, não espere nada de ninguém — nem de você.
Vai ter dia em que a conta não fecha
Vai ter passeio em que o saquinho esvazia na metade do caminho, o elástico do clicker escorrega, o cão está com a cabeça em outro lugar e uma moto passa na hora errada. Não tem sistema que aguente tudo isso ao mesmo tempo, e não é para aguentar.
O que dá para fazer no dia seguinte é voltar para o trecho calmo, refazer a arrumação das mãos e recomeçar por ali. Passeio com cão que puxa é uma coisa que se ajusta todo dia, não uma coisa que se resolve uma vez.