Dez minutos de farejo bem conduzidos gastam mais a cabeça de um cão idoso do que um passeio longo, e dá para montar isso dentro do apartamento com o que já está em casa: uma toalha de banho, um punhado de ração, um tapete que não escorrega e um pedaço de corredor livre. O que cansa o cão velho não é distância, é decisão. Cada farejada é uma pergunta nova, e responder pergunta gasta muito mais do que andar em linha reta por uma calçada que ele já conhece de cor.
Eu moro num apartamento de dois quartos, andar do meio, e convivo com um cão que já passou dos onze. Três da tarde é o pior horário do dia dele. A casa está fechada, não corre vento, o passeio da manhã já ficou para trás e o da noite ainda demora umas quatro horas. Ele levanta, dá duas voltas, cheira a tigela vazia, deita. Levanta de novo. Deita de lado no piso da sala. Não é fome e não é tristeza: é cabeça sem ter o que fazer, num dia que para ele é muito mais comprido do que para nós.
Eu tentei resolver isso com passeio. Passeio extra, passeio mais longo, uma terceira saída no meio da tarde. Não funcionou, e não foi por preguiça dele. Às duas da tarde o piso da rua está quente demais para pata de cão velho, o elevador demora, a portaria tem movimento, e quando ele volta, volta cansado do corpo e acordado da cabeça. Passeio continua sendo passeio, e ele sai duas vezes por dia, sempre no fresco. Só que existe um buraco de várias horas entre uma saída e outra. É esse buraco que o farejo preenche.
Farejo de dez minutos: como eu monto
Pega a toalha de banho que já perdeu a maciez, aquela de bordinha solta, e estende no chão do corredor, em cima de um tapete. Nunca sobre piso frio liso. Cão idoso com fraqueza na parte de trás escorrega, se assusta e perde a confiança na brincadeira — e depois disso você vai penar para convencê-lo a voltar.
Espalha um punhado de ração por cima, primeiro aberto, sem dobra nenhuma. Só espalhado no comprimento da toalha. Isso já é farejo. Já usa o nariz, já desacelera, já obriga ele a procurar em vez de engolir de uma vez.
Se ele resolve isso em trinta segundos e fica te olhando, aí você sobe um degrau: dobra a toalha ao meio, com a ração dentro. Depois dobra em quatro, deixando as pontas soltas para ele desmanchar com o focinho. Mais para frente, um cesto de roupa com duas toalhas por cima, ração escondida embaixo. E uma caixa de papelão aberta com jornal amassado no fundo, que faz barulho — barulho ajuda muito cão que já enxerga embaçado.
Comece sempre mais fácil do que você acha que ele aguenta
Essa é a parte que quase todo mundo erra, e eu errei também. Na primeira vez eu escondi demais. Ele cavou vinte segundos, não achou, olhou para mim e foi deitar. Levou três dias para voltar a se interessar. Cão velho que falha repetido não fica frustrado do jeito produtivo — ele simplesmente sai da atividade. E sai com a lição de que aquele jogo não é para ele.
Então a regra é: monte um nível abaixo do que você acha que ele tem. Se ficar fácil demais, você sobe no meio da sessão. Se ficar difícil, não tem conserto no mesmo dia.
Quando parar
Farejo de verdade, no começo, dura de oito a doze minutos. Cronometre duas ou três vezes, porque a gente subestima. O relógio da parede diz dez minutos, e o seu diz que faz cinco.
Sinais de que já passou do ponto: ele circula sem achar nada, começa a lamber o focinho demais, cava com as duas patas dianteiras, ou deita no meio da tarefa e olha para você. Deitar no meio não é preguiça, é o corpo dizendo que a cabeça saturou.
O melhor momento de encerrar é quando ele ainda quer mais. Recolhe a toalha com ele ainda farejando, não quando ele já desistiu. É isso que faz o jogo continuar bom amanhã.
Mastigar cansa de outro jeito, e tem três regras
Aquela boca não é a boca de dois anos atrás. Tem dente que já perdeu ponta, tem gengiva que retraiu, tem mandíbula que trava de manhã. Então o item de mastigação passa por três testes, nessa ordem.
Dureza. Aperta com o polegar. Se não cede nada e você não consegue deixar uma marquinha de unha, está duro demais para quem já perdeu ponta de dente. Se desmancha em lascas pequenas com a pressão do dedo, está mole demais e vira risco de engasgo.
Tamanho. Tem que caber confortavelmente na boca dele hoje, não na boca de dois anos atrás. Item grande demais para a boca atual faz o cão forçar a mandíbula de lado, e é aí que aparece o desconforto no dia seguinte.
Supervisão. Você na mesma sala, olhando. Não é deixar mastigando enquanto você toma banho ou atende uma reunião. E retira quando o pedaço ficar pequeno o bastante para passar inteiro pela garganta dele — o critério é a boca dele, não o que você acha que é grande. Se some dentro da boca fechada, acabou.
Dez a quinze minutos de mastigação concentrada deixam um cão idoso mole de verdade. Muitos dormem depois. Só que se houver sangramento na gengiva ou dente balançando, a conversa é com o veterinário antes de qualquer coisa — mastigação não é tratamento de boca dolorida.
Shaping com o focinho
Modelagem, ou shaping, é ensinar por aproximação: você marca o que apareceu de bom e espera o próximo passo vir dele. Com cão idoso isso é ouro, porque rende trabalho mental com quase nenhum trabalho de corpo.
O exercício mais simples que existe é o alvo de focinho. Senta no chão, mão fechada e vazia, na altura do peito dele — nunca acima da cabeça, porque focinho para cima em cão com dor cervical é desconforto puro. Ele vai olhar, vai cheirar, e no instante em que o focinho encostar na mão, você marca e recompensa.
Dois detalhes que fazem diferença. Primeiro: a recompensa vem da outra mão ou do bolso, nunca da mão que serve de alvo, senão a mão vira tigela e o exercício morre. Segundo: sessão de sessenta a noventa segundos, três ou quatro repetições, três vezes ao dia. Não mais que isso.
Depois que ele entende a mão, transfere para um objeto: uma tampa de pote virada no chão, ao lado do rodapé, baixinha. Focinho na tampa, marca. Depois focinho no pé da cadeira. Depois no batente da porta. Você está pedindo decisões diferentes, com o cão deitado ou em pé no mesmo lugar o tempo todo. Nada de subir, nada de pular, nada de correr pelo corredor.
Capturar a calma
Essa é a parte que rende mais e que quase ninguém faz. O dia do seu cão tem vinte e duas horas paradas. Grande parte do que dá errado em apartamento — latido para o corredor, choro na porta, sofá roído — nasce dessas horas não terem valor nenhum.
O jogo é o inverso do que a gente costuma fazer. Em vez de esperar ele fazer alguma coisa para ganhar recompensa, você marca e recompensa quando ele já está quieto por conta própria. Ele deitou, cabeça baixa, sem estar te pedindo nada? Marca. Recompensa que cai devagar no chão, entre as patas. Nunca jogada, nunca com voz animada — o erro clássico é comemorar a calma com energia e reativar o cão na hora.
Cinco a oito vezes por dia, em momentos diferentes. Em duas semanas, muitos cães começam a oferecer aquele comportamento quando o tédio bate. Em um mês, o cão deita quando você senta para comer, porque deitar passou a ser o que dá resultado nesta casa.
Uma diferença que vale sublinhar: se ele só deita quando você manda, isso é obediência, não é calma capturada. Comportamento capturado vem sem comando. É esse que segura a tarde inteira.
Rodízio de três ou quatro
Aqui está o motivo de você não precisar comprar nada. Farejo feito sempre do mesmo jeito, no mesmo lugar, vira automático em uns quatro dias. Farejo automático cansa menos, porque o cão já sabe onde está tudo.
Então anota num papel na porta da geladeira: segunda, toalha; terça, alvo de focinho; quarta, mastigação; quinta, farejo na caixa; sexta repete a toalha. Quando volta, passou tempo suficiente para parecer novo. Três ou quatro atividades rodando bastam. Dez viram confusão e cansam o tutor.
E rodízio não é soma. Se você juntar farejo, shaping, mastigação e duas sessões de calma no mesmo dia, o cão dorme às seis da tarde e acorda às três da manhã. Cão idoso tem teto, e o teto dele é mais baixo que o de um cão de dois anos.
O que isso não resolve
Farejo não substitui passeio. Ele continua precisando sair, sentir cheiro de poste, pegar sol, fazer xixi no lugar errado e cheirar o cachorro do terceiro andar. O jogo de nariz preenche o meio do dia; ele não apaga a rua.
Também não resolve dor. Se ele parou de subir no sofá, se está andando diferente, se ficou mais irritado quando você encosta, se a barriga está mais funda que o normal — o caminho é o veterinário, e nenhum jogo de farejo conserta isso. Se houver problema cardíaco ou respiratório, encurte tudo: sessões de quatro a cinco minutos, e pare ao primeiro sinal de respiração pesada.
Em casos de disfunção cognitiva, aquela confusão de cão idoso que fica preso atrás da porta, farejo ajuda e ajuda bastante, mas é apoio, não é tratamento.
Cão cego aproveita o farejo mais que qualquer outro, desde que você não mude os móveis de lugar de uma vez. Cão surdo funciona igual, só troque o marcador verbal por um sinal de mão ou um piscar de lanterna.
E se o vizinho de baixo tem bebê recém-nascido: nada de recompensa dura jogada no piso. Tudo em cima do tapete, e sessões fora do horário de silêncio. Isso não é detalhe, é o que permite o jogo continuar existindo por meses sem criar conflito no prédio.
Três e vinte da tarde. A toalha está no chão do corredor, meio desmanchada. Ele dá uma última farejada, bebe água, sobe na cadeira que pega sol e deita com a cabeça apoiada no braço. O resto da tarde é dele. E o meu também.