O jeito certo de usar sons de fogos no treino do cão é tocar a gravação num volume tão baixo que ele continue comendo ou deitado, e só subir um degrau depois de várias repetições em que ele segue do mesmo jeito. Funciona melhor como preparação: começar semanas antes da Festa Junina e do Réveillon, em sessões curtas de dois a cinco minutos por dia, com o som vindo primeiro e a comida entrando imediatamente depois. A ordem e o volume valem mais do que o barulho em si.

Agora eu. Fim de tarde de maio, chão da sala, janela fechada para o barulho da rua não competir com a caixa de som. Meu cão deitado no tatame a uns dois metros de mim. Tenho um pedaço de frango cozido sem sal na mão. Aperto o play com o volume no mínimo que o aparelho aceita. Sai um chiado fino, mais parecido com estática do que com bomba. Ele levanta uma orelha, olha para a parede, apoia a cabeça de novo.
É exatamente o que eu quero: notou e não se importou o suficiente para mudar de posição. Espero um segundo e jogo o frango no tatame, perto do focinho dele.
Repito. Som, pausa, frango. Som, pausa, frango. Umas dez vezes e paro. Três minutos no relógio. Amanhã faço de novo, e depois de amanhã também. A parte difícil desse treino nunca foi entender, é repetir.
Por que a comida vem depois do som, e não antes
Se o frango entra primeiro, ou no mesmo instante, o cão aprende que comer prevê um barulho esquisito. Se entra logo depois, o barulho passa a prever comida. Parece detalhe de cronômetro e é a coisa inteira.
O que eu quero construir não é um cão que goste de fogos. Isso não existe, e prometer isso é vender ilusão. O que eu quero é que o corpo dele comece a virar sozinho para a mão que tem comida quando escuta um estouro. Aí, na noite de verdade, o primeiro reflexo dele pode ser procurar a gente em vez de correr para debaixo da cama.
Tem gente que liga o som e cobre o cão de carinho, falando baixinho que está tudo bem. Eu já fiz isso e hoje evito. Para um cão que já está atento, voz de consolo e mão em cima podem funcionar como confirmação de que tinha mesmo motivo para temer. Silêncio e comida fazem mais do que consolo.
O volume certo é mais baixo do que você imagina
A régua não é o volume que você acha razoável, é o corpo do cão. Se ele continua mastigando, deitado, com a cabeça apoiada ou olhando pela janela, o volume está bom. Se ele levanta a cabeça na direção da caixa de som toda vez, ou para de comer, já passou do ponto.
Eu começo numa altura em que eu quase não escuto o som do meu lado da sala. Sério: quase inaudível para mim. A partir daí, quando ele passa umas cinco repetições seguidas do mesmo jeito, eu subo um degrau, não três. E mesmo quando está tudo bem, tem dia que eu desço de novo, só para não empilhar.
Também não prendo o cão perto da caixa de som e não seguro ele no lugar. Ele escolhe a distância. Se ele levanta e vai para o corredor, o volume estava alto demais e a sessão daquele dia acabou, sem drama. Forçar proximidade não ensina nada além de que aquele lugar é ruim.
Os sinais que me fazem baixar o volume
Olho de baleia, aquele momento em que ele vira a cabeça mas continua olhando para a gente e aparece o branco do olho. Lambida rápida no nariz sem comida por perto. Engolir seco. Parar de mastigar no meio do petisco. Levantar de repente e sacudir o corpo. Virar de costas para o som.
Qualquer um desses é o freio. Não é fracasso, é o sistema funcionando: o cão avisou antes de entrar em pânico, e eu obedeci. O que estraga o processo é insistir dez segundos a mais porque parece que ele está quase entendendo.
Dois a cinco minutos por dia ganham de uma sessão longa
O que constrói a associação é a repetição espaçada, não o tempo de exposição. Uma sessão de meia hora no domingo ensina menos do que cinco minutos por dia durante três semanas, porque o cão tem tempo de digerir entre uma vez e outra, e cada encontro com o som termina com comida e com ele calmo.
Na prática, eu encaixo isso em dois ou três momentos do dia: antes do passeio do fim da tarde, depois da refeição, quando ele já está de barriga cheia e mole no chão. Nunca quando ele está agitado, com visita em casa ou no meio de uma brincadeira de puxar. Sessão com cão ligado não é treino, é só barulho.
Se o prédio tem obra, ou se o vizinho está com a furadeira, pula o dia. Não tem por que competir com barulho que você não controla.
Quando vale começar, olhando o calendário
Festa Junina e Réveillon são datas previsíveis, e é isso que dá vantagem. Junho é mês de rojão em bairro residencial, e começa antes do dia 24: festa de rua, quermesse, encerramento de escola. Então maio é quando eu começo. Para o Réveillon, o certo é estar na metade do protocolo por volta do começo de dezembro, não começar no dia 29.
Se tem uma festa junina marcada no condomínio, aquela é a data alvo da primeira etapa. Não precisa chegar lá com um cão à prova de bomba. Precisa chegar com um cão que já ouviu aquele som muitas vezes na vida dele com frango do lado.
Quando o som não é o caminho
Tem um ponto em que eu paro de insistir e mando procurar ajuda. Se o cão não come nem no volume quase zero, se ele se esconde no banheiro assim que a caixa de som liga, se ele começa a tremer, babar ou arranhar a porta com um som que mal dá para ouvir, o problema é maior do que a minha caixa de som resolve.
Nesse caso o caminho costuma ser avaliação com veterinário comportamentalista ou adestrador com formação em comportamento, porque pode ter medo generalizado, ansiedade de separação junto ou um quadro que responde a medicação. Continuar a exposição nesse ponto não dessensibiliza nada, sensibiliza mais. E o mesmo vale se o cão já tem histórico de se machucar tentando fugir.
O que o treino não resolve
Ele não deixa o cão imune. O foguete da madrugada de 1º de janeiro vai ser mais alto do que qualquer coisa que eu consiga tocar em casa, vai ter eco no corredor, vai ter cheiro, vai ter o prédio inteiro vibrando. O que o protocolo faz é baixar o piso: em vez de sair do zero no susto, o cão chega naquela noite já com uma resposta aprendida.
Por isso, na noite de verdade, eu ainda monto o resto: cortina fechada, um cômodo sem janela grande, a caixa de transporte aberta com uma mantinha por dentro, TV ou ventilador fazendo barulho de fundo, água perto. Eu fico em casa, e não faço festa. A preparação não substitui a noite, ela só melhora o que a noite vai encontrar.