Deixar o cão farejar o passeio inteiro cansa mais que correr porque o cansaço vem do trabalho do nariz, não da distância percorrida. E dá para entregar isso sem dobrar o tempo na rua: divida a saída em um trecho de deslocamento, em que vocês dois andam e o percurso acontece, e um trecho de farejo, em que o cão escolhe o caminho, o ritmo e quanto tempo fica parado em cada ponto. Os dois cabem no mesmo passeio de sempre, na mesma janela de vinte ou trinta minutos que você já tem.

Eu passei anos achando que estava passeando. Saía às seis e meia da manhã, antes do sol pegar a calçada, guia curta, passo firme, vinte e cinco minutos de quarteirão. Voltava com o braço dolorido de tanto conter puxão e com a sensação de dever cumprido. O cão chegava em casa, bebia água, dava duas voltas e ia pegar o brinquedo. Eu sentado no sofá, ele querendo brincar. Alguma coisa naquela conta não fechava.
O dia em que a conta abriu foi sem graça nenhuma. Chovia fino, eu estava sem pressa por um motivo que já esqueci, e ele travou num canteiro de esquina, daqueles com uma moita que ninguém poda. Ficou ali uns seis, sete minutos. Nariz no chão, orelhas para frente, uma respiração curta e rápida que eu só conhecia de quando ele dorme sonhando. Eu não puxei. Quando ele terminou, andamos menos que o normal e voltamos. Ele dormiu a manhã inteira.
Foi aí que virou para mim: o meu cão não estava cansado de andar, estava cansado de cheirar. E eu estava oferecendo exercício de corpo quando o que faltava era exercício de nariz.
O que cansa é o nariz, não a pata
Um cão que anda rápido processa o mundo em duas ou três informações por segundo: direção, obstáculo, cheiro de fundo. Um cão com o nariz no chão processa dezenas. É leitura, comparação, memória de quem passou ali antes, de que horas passou, se estava com pressa, se era conhecido. Isso gasta. É parecido com a diferença entre correr na esteira e resolver um problema difícil: as duas coisas cansam, mas só uma delas para de cansar quando você senta.
Na prática, é por isso que um passeio lento, com o nariz no chão, deixa o cão mais acomodado em casa do que um passeio rápido do mesmo tempo. E é por isso também que o passeio rápido feito no automático, aquele em que você decide cada passo, muitas vezes termina com o cão ainda ligado.
Como isso fica na prática, com o mesmo tempo de rua
Eu não aumento o passeio. Só mudo a divisão.
Nos primeiros dez ou quinze minutos, a gente anda. Guia curta o suficiente para ser segura, passo constante, o percurso é meu: sair do prédio, atravessar a rua, fazer o contorno que eu já sei que é tranquilo. O cão anda ao lado, faz as necessidades, o corpo trabalha.
Depois vem o trecho dele. Eu escolho onde esse trecho começa (um lugar seguro, longe de fluxo de carro, com chão variado) e a partir dali eu paro de decidir. A guia fica frouxa de verdade, com folga, o cão vai para onde quiser dentro daquela área, para naquela árvore o tempo que quiser, volta na mesma árvore se quiser. Se eu tenho trinta minutos de passeio, dez são de farejo. Se tenho vinte, são cinco ou seis. Não precisa ser a metade. Precisa existir.
O que não pode acontecer nesse trecho é a guia esticar. Guia esticada é você decidindo de novo, e volta tudo para o mesmo lugar de antes.
Tem uma coisa que eu aprendi na marra: quem manda no trecho de farejo é o nariz, não a conveniência. Se o ponto que ele escolheu é a base do poste onde a vizinhança toda passa com cachorro, é ali que a gente fica. Cheiro de outro cão é o jornal do dia, não é distração.
Quando não dá para sair, o farejo cabe na sala
Passeio curto, chuva, aquele dia de calor em que a calçada fritaria a pata, ou uma fase em que o cão não pode fazer esforço de impacto. Nesses dias eu faço farejo dentro de casa, e a lógica é a mesma.
Espalho a ração dele por um ambiente só, não pela casa inteira, um cômodo. Começo jogando uns três ou quatro grãos à vista, a trinta centímetros do focinho, e deixo ele achar. Depois jogo mais, um pouco mais longe. Depois escondo atrás do pé da cadeira, embaixo da ponta do tapete, no canto do rodapé. São cinco minutos, e ele sai de lá com a mesma cara do canteiro.
Não precisa de equipamento nenhum. A comida do dia, um cômodo e alguma paciência do seu lado.
Comece fácil, porque a dificuldade tem preço
Esse é o erro que eu cometi e que eu vejo se repetir. Esconder tudo de uma vez, longe, em lugares impossíveis. O cão erra três vezes, desiste, e aí o jogo acabou. O que era para ser a melhor parte do dia virou uma coisa frustrante, e dificuldade demais não ensina, desliga.
A ordem que funciona é essa: visível e perto, visível e longe, escondido e fácil, escondido e difícil. Só passo para o degrau seguinte quando o anterior sai rápido, com o rabo balançando.
O que pode dar errado
Guia frouxa não é guia solta. A coleira continua presa, continua alguém segurando, e o trecho de farejo acontece em lugar que você conhece.
Chão de rua é chão de rua. Cabeça baixa significa focinho a dez centímetros de osso de frango, de comida estragada, de isca em alguns lugares. Eu não solto a guia e não tiro o olho do chão à frente. É o preço do trecho de farejo, e é um preço justo.
Calor pesa. Farejo é cabeça baixa, perto do asfalto, e em dia de trinta e cinco graus isso é pior que andar. No verão, aqui em apartamento, o trecho de farejo é de manhã cedo ou depois que o sol baixa, nunca no meio do dia.
E nem todo cão é igual. Alguns querem andar, cobrir terreno, e farejam só de passagem; forçar a parada num cão desses não produz nada. O contrário também existe: cão que faz o quarteirão inteiro parando a cada dois metros, e um tutor que precisa chegar em casa. Nesse caso, o trecho de deslocamento é que segura a estrutura: dez minutos de andar de verdade, e depois o tempo do nariz, do jeito que der.
O ponto de tudo isso não é o cão andar menos. É parar de gastar o passeio inteiro no lugar errado.