Ignorar o cachorro na chegada não ensina ele a parar de pular porque o reencontro em si já é a recompensa. O elevador parando no andar, a chave girando na fechadura, o cheiro que atravessa a fresta da porta e a presença de alguém do outro lado excitam o cão muito antes de qualquer mão encostar nele. O que reduz o pulo não é a falta de atenção, e sim trocar um reencontro eufórico por um ritual de chegada previsível e curto, em que o contato só acontece depois de alguns segundos com as quatro patas no chão.
Eu moro num apê pequeno e, na maioria dos dias, quem chega sou eu. Não tem outra pessoa do outro lado da porta para segurar o cachorro enquanto ela abre, não tem corredor comprido para diluir o som, não tem quintal para ele gastar a energia antes. São dois metros entre a porta e o sofá, e o problema inteiro cabe nesses dois metros. Foi por isso que a versão clássica, "entre em silêncio e ignore por cinco minutos", nunca fechou para mim. Ela parece escrita para uma casa grande, com mais gente circulando. No meu caso, ela produziu um cachorro frustrado e uma pessoa de mau humor às sete da noite, todos os dias.
Por que a versão de ignorar não fecha
O reencontro é o evento, não o carinho. A excitação começa lá fora, quando ele ouve o portão, o elevador, o seu passo no corredor. Quando a porta abre, o cão já está num estado fisiológico que não tem nada a ver com pedir carinho. Ele pula porque o corpo está cheio e o pulo é a descarga. Ignorar não tira nada disso: você continua entrando, seu cheiro continua entrando, seu corpo continua ocupando o espaço. Para um cão já acelerado, isso basta.
Tem mais três coisas que eu fui percebendo na prática.
A primeira é que a regra do silêncio raramente é cumprida igual duas vezes. Num dia você aguenta trinta segundos, no outro, cansado, cede no segundo seguinte. Reforço intermitente é justamente o que mais gruda um comportamento. O cão aprende que a chegada é uma loteria, e loteria vale a pena tentar.
A segunda é que ignorar não oferece alternativa nenhuma. Quem ignora tira o carinho, mas não dá ao cão outra coisa para fazer com o corpo. Ele só tem um repertório na porta: pular. Se esse repertório não é substituído, ele volta.
A terceira é que existem cães para quem a ausência de contato aumenta a frustração. Nesses, o silêncio vem junto com rodar, latir e morder a guia pendurada. Ignorar funciona para um cão que está pedindo atenção. Não funciona para um cão que está excitado.
O ritual que eu uso hoje, do corredor para dentro
Antes de girar a chave
Eu paro no corredor. Mão na chave, sem girar. Conto até dez, respiro, escuto. Parece bobo, mas é o único amortecedor que existe num apê: o corpo com que você entra é o mesmo corpo que você vai ter trinta segundos depois. Se eu entro falando, rindo, resolvendo coisa no celular, ele lê isso antes de eu tirar o sapato.
A entrada
Chave, porta, bolsa no chão. Sem voz. Eu não chamo o nome dele, não faço voz fina, não pergunto "oi, sentiu minha falta?". Ando devagar, de lado, sem encarar. Não vou em direção ao cão. Deixo a bolsa, penduro a chave, e espero.
As quatro patas
O que eu espero é o pouso. O pulo sempre tem um pouso. É nesse instante, quando as quatro patas tocam o piso, que a chegada acontece. Marco com um "isso" baixinho, ou com o clicker, se você já usa um, e só então desço a mão: um cafuné curto no peito, de lado, com o corpo virado, cinco segundos. Depois levanto e volto para a minha vida, água, roupa, jantar. O cumprimento é o prêmio, então ele precisa ser curto. Se ele durar três minutos, o cão está aprendendo que o pulo leva você para essa posição e para esse tempo todo de contato.
Repetições curtas: o treino inteiro em dez minutos
A parte que a maioria dos tutoriais pula é essa, e é a que faz diferença. Depois de uma chegada normal, eu saio de novo. Fecho a porta, vou até o elevador ou desço um lance de escada, espero quarenta segundos, e volto. Faço de cinco a seis vezes numa sentada de oito a dez minutos.
Na primeira volta ele pula. Na terceira, a recepção já chega diferente: o corpo mais baixo, o rabo mais lento, a espera pelas quatro patas mais curta. Não é obediência, é antecipação. O cão aprendeu a sequência, e a sequência é o que abre a porta do contato.
A recompensa pode ser um pedaço pequeno de petisco jogado no chão perto do seu pé. Jogar no chão tem uma vantagem concreta: o cão precisa baixar a cabeça e mudar de postura para pegar, e o impulso do pulo morre ali. Alternar petisco com cafuné evita que ele passe a achar que só comida conta.
Cinco repetições boas valem mais do que vinte ruins. Se em duas ou três voltas ele estiver muito acima do ponto, senta no chão, espera esfriar, encerra. Treino de chegada feito com pressa vira só mais chegada.
O que dá para preparar antes de a porta abrir, e o que não dá
Se tem outra pessoa em casa, isso é ouro. Cinco a dez minutos antes de você chegar, essa pessoa coloca no chão algo de mastigar recheado, um punhado de ração espalhado num pano ou um brinquedo de comida. A função não é distrair. É puxar o cão para outro modo corporal. Cão que mastiga e cão que fareja têm o corpo mais devagar do que cão que espera de pé, olhando para a porta.
Agora, se você mora sozinho, essa versão não existe: você não está em casa cinco minutos antes de chegar. Nesse caso eu inverto. Assim que o cumprimento curto termina, coloco algo de mastigar no chão e vou fazer as minhas coisas. Em vez de baixar a excitação antes de eu entrar, dou um lugar para ela escoar depois de eu entrar. O pico da chegada passa a ter para onde ir sem passar por cima de mim.
Joelho, mão e "não": por que isso também é atenção
Empurrar com o joelho parece o oposto de dar atenção. Não é. Contato físico é contato. O joelho encostando no peito do cão é pressão, corpo contra corpo, e para muito cão jovem isso é a parte mais gostosa do reencontro. Some a isso o "não", "sai", "desce", dito no exato momento do pulo, olhando para ele. Isso é um marcador. Você acabou de marcar o comportamento que queria reduzir.
O que eu faço em vez disso: tiro as mãos do alcance, giro o ombro, dou dois passos para trás para que o pulo caia no vazio. Sem toque, sem voz, sem encarar. A retirada não é castigo. É só tirar a superfície onde o pulo estava pousando.
Quando mora mais de uma pessoa no apartamento
O erro aqui não é a falta de treino, é a falta de combinado. Se cada pessoa chega de um jeito, a porta vira sorteio e o cão testa todos. Na prática, o que funcionou na minha casa e no que eu vejo funcionar em apês com mais de um morador foi isto:
Quem chega e não pode fazer o ritual inteiro não cumprimenta. Entra, põe a bolsa no chão, vai para a cozinha, sem olhar e sem falar. Meia chegada é pior do que chegada nenhuma, porque ensina que às vezes dá certo.
Ninguém anuncia a chegada do outro. "Chegou o papai!" é exatamente o que faz o cão subir de patamar antes da chave girar.
A primeira chegada da noite é morna de propósito. Se alguém chega e faz uma festa enorme, e vinte minutos depois chega a segunda pessoa, a segunda recepção é ainda mais explosiva, porque o cão já passou por uma.
E vale lembrar que a portaria e o interfone também fazem parte da chegada. Para o cão, o toque do interfone já é o começo do evento, mesmo que você ainda esteja no estacionamento.
O que muda, e o que eu não vou prometer
Não existe prazo. Depende da idade, de há quanto tempo o pulo vem sendo ensaiado, de quantas pessoas entram e saem dessa porta por dia. O que eu observo, e isso eu posso dizer com segurança porque é o que aconteceu comigo, é que quando a chegada deixa de ser o momento mais emocionante do dia, o pulo perde combustível. Ele pode continuar aparecendo quando chega visita, quando você entra carregado de sacola ou num dia fora da rotina. A diferença é que ele deixa de ser a regra.
Hoje a minha chegada tem uns oito segundos de festa, no chão, e depois um cachorro que volta para o osso dele. Não é o cão mais obediente do prédio. É uma casa em que a porta não é mais um acontecimento.