Para subir a dificuldade do procura, mude uma variável por vez — distância, altura, número de esconderijos ou o quanto o petisco está coberto — e mantenha o cão acertando perto de quatro a cada cinco buscas. Só que a escada começa antes disso: o cão precisa ouvir sempre a mesma palavra antes de procurar, e essa palavra tem que nascer colada numa busca fácil, que ele ganha de olho aberto, vendo de onde o petisco saiu.

Eu passei meses achando que tinha um cão de faro. Tinha um cão que decorou dois cantos.
Ele parava na porta da sala, olhava para o pé do sofá, depois para a ponta do tapete, ia nos dois na mesma ordem, comia e voltava para me encarar. Cinco segundos de jogo. Eu falava a palavra no meio daquilo, mas podia falar qualquer coisa — ele já estava em movimento antes de o som terminar. O que ele seguia não era a palavra. Era o barulho do meu corpo se abaixando.
A virada foi pequena e sem graça. Petisco na mão aberta, na altura do focinho dele, e a palavra dita uma vez só. Larguei no chão, entre nós dois, à vista. Ele comeu. Repeti. Na quinta vez, quando eu falei, a cabeça já tinha descido antes de o petisco sair da minha mão. Aí eu soube que a palavra existia.
Primeiro a palavra, depois a dificuldade
Esconder antes de nomear estraga o jogo por dentro. Sem uma palavra que marque o começo, o cão não aprende que existe uma brincadeira — aprende que às vezes tem comida perdida pela casa, e passa o dia auditando o rodapé.
Tem um detalhe que quase todo mundo faz sem perceber: olhar para o esconderijo. Cão lê direção de olhar melhor do que lê palavra. Se eu fico de rabo de olho para o pé do sofá, ele vai direto no pé do sofá sem farejar nada, e depois eu fico achando que ele achou pelo nariz. Então eu escondo, viro de costas, olho para a parede, ou saio do ambiente por alguns segundos.
Com o tempo, um segundo som ajuda: uma palavra curta no instante em que ele encosta no petisco. O jogo ganha começo e fim marcados, e não vira uma caçada sem contorno.
A escada: uma variável por sessão
A escada tem quatro degraus:
- Distância: o mesmo esconderijo de sempre, mas com você largando o cão mais longe — da porta do quarto, depois do fim do corredor.
- Altura: do chão para a beirada de um móvel baixo, e depois para o assento de um pufe ou de uma poltrona, sempre onde ele alcança com o focinho sem precisar subir em nada.
- Quantidade: um esconderijo, depois dois, depois três.
- Cobertura: à vista, depois meio tapado por uma dobra de pano, depois embaixo de um pote virado, depois completamente escondido.
O que não se faz é subir dois degraus no mesmo dia. Se eu escondo mais longe e ainda tapo o petisco, e ele erra, eu não sei qual das duas mudanças quebrou a conta. Volto tudo, perco a semana e ainda saio achando que o cão desaprendeu.
Quando ele acerta o nível novo em duas sessões seguidas, aquele nível virou o normal. Aí sim eu subo um degrau. Um.
A regra dos quatro em cinco
Cinco esconderijos, quatro achados: o nível está certo. Ele está sendo desafiado e ainda está ganhando, que é exatamente onde o jogo precisa ficar.
Duas sessões seguidas de cinco em cinco com facilidade: hora de subir.
Duas ou três de cinco: não é burrice nem teimosia, é nível alto demais. Volto um degrau, ele acerta de novo, e o jogo continua sendo a melhor parte do dia dele.
Os sinais de que passou do ponto são bem concretos. O nariz para de trabalhar num ritmo constante e vira um farejar solto. Ele começa a checar os dois cantos antigos por hábito, sem acreditar neles. Senta e me olha. Pede com a pata. Ou começa a revirar o sofá, como quem espera que a comida apareça sozinha — e isso é o oposto do que eu quero que ele treine.
Conte as peças antes de esconder
Eu conto quantos petiscos saíram do pote antes de começar e conto quantos voltaram no fim. Parece obsessão, mas é o que impede o cão de passar o resto do dia caçando um pedaço esquecido atrás do rodapé. Cão que encontra comida de graça no chão aprende a caçar comida de graça no chão — todo dia, em todo canto, muito depois de o jogo ter acabado. Em apartamento pequeno isso vira rotina em uma semana. No verão ainda tem o formigueiro, que é bem menos poético do que a ideia de um cão farejador.
A conta serve para outra coisa também. Se eu escondi sete e ele achou cinco, eu preciso saber se dois ficaram esquecidos em algum canto ou se ele realmente não achou. Sem essa conta, eu não sei se o nível dele é quatro em cinco ou cinco em sete — e aí não sei se subo ou se recuo.
Onde esconder também tem limite. Nada em cima da geladeira, nada atrás da estante junto dos fios, nada dentro de algo que ele possa rasgar, nada que exija subir numa cadeira e saltar. Se o preço do esconderijo é o cão arriscar o corpo, o esconderijo é ruim, por mais bonito que fique na brincadeira.
Cinco a dez esconderijos, e pare no alto
Uma sessão boa aqui é de cinco a dez esconderijos. Menos do que isso, ele nem esquentou. Mais do que isso, o farejado perde o ritmo e ele começa a checar lugares onde eu não escondi nada — cansaço, não falta de vontade.
Eu termino enquanto ele ainda está animado. A última busca é sempre uma que eu sei que ele acha rápido, no chão, fácil de achar. O jogo acaba no ponto alto, e é por isso que, na próxima vez, ele levanta a cabeça quando me vê com a mão fechada.
A palavra que tira o cão da cozinha
Depois que a palavra está sólida, ela faz outro trabalho. Se eu preciso do cão fora da cozinha enquanto mexo numa panela, eu não arrasto pela coleira nem fico negociando. Escondo alguma coisa no quarto, volto, falo a palavra, e ele vai.
Para isso funcionar, o começo é no mesmo ambiente: escondo uma peça à vista, já do lado de dentro do quarto, e vou junto na primeira vez. Depois escondo mais fundo e ele já vai na frente. Depois de algumas semanas, a palavra dita lá da cozinha manda ele para o outro quarto sozinho. É o mesmo comando, com a casa toda como tabuleiro.
O cuidado é não transformar a palavra numa cilada. Se toda vez que eu falo disso ele vai para o quarto e a porta fecha na cara dele, o jogo vira punição. Eu só uso quando lá dentro também tem coisa boa esperando.
Quando ele trava em vez de farejar
Tem cão que não sai procurando. Senta, olha para você, levanta a pata, ou simplesmente te segue pela casa. Quase nunca é preguiça. Em geral é um cão que aprendeu a olhar para o tutor para resolver as coisas e nunca foi convidado a usar o nariz.
Para esse cão, o primeiro passo não é esconder mais, é esconder menos, com ele olhando. Petisco largado no chão à vista, com a palavra. Depois, uma dobra de pano por cima, ainda à vista. Depois, o mesmo pano, com ele fora do ambiente por dois segundos. Cada passo só avança quando ele já está indo sozinho no passo anterior.
E quando ele começa a trabalhar de verdade, o corpo muda. A cabeça baixa, o rabo para de bater e fica quase imóvel, as orelhas vão para trás, e o focinho vira uma máquina de ar. É nessa hora que eu fico quieto. Cada palavra minha é um motivo para ele levantar a cabeça e olhar para mim de novo.
Nada disso é tratamento. Se o cão tem ansiedade, medo ou está destruindo a casa, o jogo pode ser um pedaço bom do dia, mas não é resposta para isso — esse é outro assunto, com outras pessoas envolvidas.
O que ele entrega é mais simples e, para quem mora em apartamento, bastante: a casa passa a ser um lugar onde o cão tem um trabalho para fazer com o nariz, e não só um lugar onde ele espera o dia passar. Hoje, quando eu falo a palavra, a cabeça desce antes de o som terminar. É esse o sinal de que o nível está certo — ele não precisa me olhar para saber o que fazer.